
Nas últimas semanas, tenho insistido em uma pergunta que considero inevitável quando discutimos o futuro do Acre: afinal, que tipo de Estado queremos construir? Primeiro falamos de Wanderley Dantas e de sua visão de um Acre integrado ao Brasil e ao Oceano Pacífico. Depois, falamos sobre a saída pelo Pacífico e sobre o risco de transformarmos o Estado apenas em um corredor logístico para a produção dos outros. Agora, talvez seja necessário olhar para o outro lado do rio Madeira e fazer uma comparação que muita gente prefere evitar: o que Acre e Rondônia fizeram de diferente ao longo das últimas décadas?
Antes de qualquer coisa, é preciso desfazer uma provocação que costuma aparecer nesse debate. O Acre não precisa virar Rondônia. E Rondônia não precisa virar Acre. São Estados diferentes, com histórias, formações econômicas, territórios e trajetórias políticas distintas. A questão não é copiar um modelo. É entender por que determinadas escolhas produziram determinados resultados e perguntar se podemos aprender alguma coisa com a experiência do vizinho.
Rondônia conseguiu construir uma economia mais dinâmica, apoiada na produção agropecuária, na expansão de cadeias produtivas, no comércio e na atração de investimentos. Ali, produzir, vender, investir e ampliar negócios passaram a fazer parte da própria identidade regional. Isso não significa que Rondônia tenha resolvido todos os seus problemas ou que seu caminho seja livre de contradições. Significa apenas que existe uma experiência concreta que merece ser estudada sem preconceito.
O Acre, por outro lado, passou décadas construindo uma relação muito mais desconfiada com o capital privado, com o agronegócio e com a expansão das atividades produtivas. A chamada florestania, que ganhou enorme influência na formulação política do Estado, colocou a floresta no centro da identidade acreana e ajudou a consolidar uma determinada maneira de enxergar a economia. Preservar passou a ocupar o centro, enquanto produzir, investir e transformar economicamente o território muitas vezes precisavam ser justificados antes mesmo de serem discutidos.
É claro que preservar a floresta importa. A questão é outra. Em que momento a preservação deixou de ser uma política ambiental e passou a funcionar, em determinados setores do Estado, como uma espécie de filosofia econômica? Em que momento começamos a aceitar como natural que o Acre tivesse vocação para conservar, mas não necessariamente para produzir? E por que durante tanto tempo pareceu tão difícil admitir que uma população pobre também precisa de emprego, renda, infraestrutura, indústria, crédito, mercado e liberdade para empreender?
Essa herança não desaparece simplesmente porque o discurso político mudou. Instituições carregam hábitos. Burocracias carregam desconfianças. A sociedade também carrega conceitos que passam de uma geração para outra. Depois de décadas ouvindo que determinadas atividades eram incompatíveis com a Amazônia, não é estranho que parte do próprio Estado tenha passado a enxergar o empresário como alguém que precisa provar sua inocência antes de receber autorização para investir.
Enquanto isso, Rondônia avançou na produção e na transformação de suas vantagens econômicas em negócios. O Estado fortaleceu cadeias agropecuárias, comércio e logística e criou uma cultura empresarial mais voltada à expansão dos mercados. Não significa que devamos importar essa realidade. Significa que deveríamos estudá-la.
E aqui está um ponto fundamental: o Acre possui ativos que não podem ser ignorados. Temos terras produtivas, água, biodiversidade, produção pecuária, agricultura, localização estratégica e uma conexão crescente com o Peru e o Pacífico. Temos, ainda, uma oportunidade que há poucas décadas parecia impossível: integrar nossa economia a corredores internacionais de comércio. O que falta não é apenas potencial. Falta transformar potencial em escala. E escala exige capital.
Não existe indústria sem alguém disposto a colocar dinheiro em uma fábrica. Não existe agroindústria sem frigorífico, armazenamento, energia, logística e mercado. Não existe inovação sem empresas capazes de assumir riscos. E não existe liberdade econômica quando cada novo empreendimento precisa atravessar uma montanha de obstáculos antes de começar a funcionar.
É nesse ponto que Rondônia pode ser mais útil ao Acre como experiência do que como modelo. Não precisamos importar uma identidade econômica de outro Estado. Precisamos observar como nossos vizinhos transformaram produção em atividade econômica, atividade econômica em cadeias produtivas e cadeias produtivas em oportunidades. Precisamos entender o que funcionou, o que não funcionou e o que pode ser adaptado à nossa realidade.
Também precisamos superar um certo complexo de inferioridade econômica. Durante muito tempo, falar em crescimento parecia uma espécie de pecado. Hoje, já conseguimos discutir com mais naturalidade agronegócio, indústria, exportação, infraestrutura e integração. O próximo passo é abandonar a ideia de que essas coisas acontecerão por força de discursos ou decretos.
Wanderley Dantas compreendeu uma coisa há mais de cinquenta anos: o Acre não poderia permanecer isolado. A estrada até o Pacífico era parte dessa visão. Mas estrada nenhuma produz riqueza sozinha. É preciso ter o que transportar, quem produza, indústria para agregar valor, empresas, trabalhadores qualificados e capital disposto a correr riscos.
Por isso, talvez a pergunta correta não seja se o Acre deve virar Rondônia. A pergunta é muito mais incômoda: por que dois Estados vizinhos, submetidos a condições amazônicas semelhantes e separados apenas por uma fronteira política, construíram economias tão diferentes?
O que Rondônia entendeu sobre capital que o Acre demorou tanto para compreender? O que fizemos durante décadas que afastou investimentos produtivos? Quanto crescimento deixamos de produzir por medo de crescer? Quanto talento foi embora porque não encontrou oportunidade? E agora que começamos a enxergar o Pacífico como uma porta de saída, teremos coragem de construir, dentro de casa, aquilo que essa porta precisa carregar?
Talvez não devamos virar Rondônia. Talvez devamos apenas deixar de ter medo de ser Acre. Um Acre que preserve sua floresta, mas que também produza; que conheça suas limitações, mas não transforme limitações em destino; que use a integração com o Peru como oportunidade, e não apenas como passagem; que receba capital, estimule empresas, agregue valor à produção e transforme suas vantagens naturais em oportunidades para quem vive aqui.
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