Uma saída pelo Pacífico, mas para levar o quê?

Dando continuidade às discussões sobre as rotas de desenvolvimento do Acre, na semana passada escrevi sobre Wanderley Dantas e sua chamada Rota Oeste, tentando recuperar um personagem que, apesar de ter pensado o futuro do Estado quando quase ninguém pensava, acabou sendo empurrado para o esquecimento. Quero fechar, pelo menos por enquanto, esse primeiro capítulo sobre Dantas falando justamente de uma das ideias que atravessaram as décadas e chegaram aos nossos dias: a saída do Acre pelo Oceano Pacífico.

O velho Dantinhas, como era conhecido o ex-governador, foi uma figura emblemática para a história econômica do Acre e um dos personagens que apostaram na produção como caminho para o desenvolvimento. Seu sonho era ambicioso: transformar o Acre em uma área produtora, capaz de abastecer mercados e, principalmente, encontrar uma saída para aquilo que parecia ser nossa eterna condenação geográfica, o isolamento. A ideia de produzir aqui e levar essa produção para o Pacífico, atravessando o Peru e chegando aos mercados asiáticos, parecia distante demais para uma época em que o Acre ainda lutava para se conectar fisicamente ao restante do Brasil.

Hoje, meio século depois, a geografia mudou menos do que imaginávamos, mas as possibilidades mudaram muito. O que Dantas enxergava como projeto de futuro ganhou infraestrutura, estradas e acordos de integração. A chamada Rota Quadrante Rondon, ou Rota 3 das Rotas de Integração Sul-Americana, pretende conectar Acre, Rondônia e Mato Grosso aos portos do Pacífico, criando uma ligação entre o Centro-Oeste e o Norte do Brasil e os mercados do Peru e do Chile. Para o Acre, a promessa é transformar uma posição geográfica que durante muito tempo foi tratada como problema em uma possível vantagem logística.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de comemorarmos a chegada ao Pacífico como se ela, por si só, resolvesse o nosso problema de desenvolvimento: vamos levar o quê?

Porque uma estrada pode atravessar o Acre sem necessariamente desenvolver o Acre. Um caminhão pode passar por aqui sem deixar riqueza suficiente para quem vive aqui. Podemos ter uma grande rota internacional cortando nosso território e, ainda assim, continuar ocupando apenas a posição de passagem entre quem produz e quem compra. E talvez esse seja o ponto central da discussão que precisamos fazer agora.

O agronegócio acreano vem crescendo. A pecuária continua sendo uma das principais atividades econômicas do Estado, a produção agrícola ganhou espaço e novos produtores passaram a enxergar possibilidades que algumas décadas atrás pareciam improváveis. O Acre possui terra, água, capacidade produtiva e uma localização que pode se tornar estratégica para a ligação do Brasil com o Pacífico. Mas ainda existem contradições que não podem ser ignoradas.

Um exemplo é particularmente simbólico. O Acre ainda não possui um frigorífico habilitado para exportar carne diretamente para a China. Temos um rebanho expressivo, temos produtores, temos produção e estamos discutindo uma rota internacional que pode encurtar caminhos até grandes mercados consumidores. Mas ainda não conseguimos transformar toda essa possibilidade em uma cadeia de valor capaz de capturar dentro do próprio Estado uma parcela maior da riqueza gerada.

É preciso perguntar se queremos apenas que o boi acreano atravesse a fronteira ou se queremos que parte maior do processo econômico permaneça no Acre. Queremos apenas vender matéria-prima ou queremos industrializar? Queremos apenas colocar a produção em caminhões ou queremos desenvolver uma cadeia de frigoríficos, processamento, armazenamento, logística, tecnologia, serviços e exportação? Queremos ser o caminho para o produto dos outros ou queremos produzir aquilo que o mundo terá interesse em comprar de nós?

Essa discussão também precisa considerar o passado recente do Estado. Durante décadas, o Acre viveu sob uma determinada concepção política e econômica que colocou a preservação ambiental e a chamada florestania no centro de seu projeto de poder. A floresta passou a ocupar o lugar de grande explicação para o Acre, enquanto a atividade produtiva, o empreendedorismo e a expansão econômica frequentemente foram submetidos a uma desconfiança que deixou marcas profundas. Foram décadas de governos do PT e de uma visão de Estado que, com diferentes intensidades e resultados, influenciou a maneira como se discutia desenvolvimento, propriedade, produção e iniciativa privada.

Não se trata de negar a importância da preservação ambiental. O Acre não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento. O que precisamos superar é a falsa ideia de que produzir é necessariamente destruir e de que o empreendedor deve ser tratado como problema antes de ser tratado como parte da solução. O resultado de décadas de insegurança, burocracia, restrições e desconfiança em relação a determinados setores não desaparece simplesmente porque o governo muda ou porque o discurso político muda.

Superamos parte dessa visão. O Acre hoje discute produção, infraestrutura, integração, agronegócio, exportação e novas oportunidades com muito mais naturalidade do que no passado. Mas superar uma mentalidade não significa automaticamente construir um ambiente capaz de atrair capital, estimular empreendedores e transformar potencial econômico em riqueza. Ainda existe um longo caminho entre dizer que o Acre quer se desenvolver e criar as condições para que alguém decida investir milhões de reais aqui.

É justamente por isso que a saída pelo Pacífico não pode ser tratada apenas como uma obra de infraestrutura. Ela precisa ser entendida como parte de um projeto maior de desenvolvimento. Dantas parecia compreender isso quando imaginava uma Rota Oeste integrada a um projeto produtivo. A estrada não era o objetivo final. Era o meio para conectar produção, mercado e território.

Hoje temos uma oportunidade que a geração de Dantas não teve. Temos uma fronteira terrestre consolidada, uma ligação com o Peru, acesso ao Pacífico e um cenário internacional no qual os mercados asiáticos possuem enorme importância. O que ainda precisamos construir é a capacidade de transformar essa localização em liberdade econômica, investimento, indústria, empregos e produção de maior valor agregado.

O Acre não pode aceitar o papel de simples corredor. Corredores são importantes, mas corredores não podem ser o destino de um Estado. Se caminhões carregados de produtos atravessarem nossas estradas em direção ao Pacífico, precisamos perguntar quanto dessa riqueza será produzida aqui, quanto será processada aqui e quantos empregos serão criados aqui. Se a rota servir apenas para transportar riquezas produzidas em outros lugares, teremos resolvido um problema logístico sem necessariamente resolver o problema do desenvolvimento.

E talvez seja esse o grande desafio da geração atual. Wanderley Dantas sonhou com uma saída pelo Pacífico quando ela parecia quase uma fantasia. Hoje, a saída existe. A estrada existe. A fronteira existe. O mercado existe. O que ainda precisamos decidir é o que faremos com tudo isso.

Vamos apenas assistir aos caminhões passarem? Vamos ficar a ver navios no Pacífico enquanto outros Estados produzem, industrializam e exportam? Ou vamos transformar a Rota Oeste que Dantas imaginou em uma verdadeira rota de desenvolvimento para o Acre? Teremos coragem para criar um ambiente em que o produtor queira produzir mais, o empresário queira investir, a indústria queira se instalar e o capital encontre segurança para ficar? E, quando a mercadoria acreana finalmente chegar aos portos do Pacífico, estaremos exportando apenas matéria-prima ou teremos construído, dentro do próprio Acre, uma economia capaz de capturar uma parte maior da riqueza desse novo caminho?

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Ronan Matos é escritor, jornalista, membro da Academia Juvenil Acreana de Letras e editor-chefe do Diário do Acre.