Wanderley Dantas e o projeto de desenvolvimento que o Acre esqueceu 

A convite do meu amigo Alex William, editor do Mâncio Lima em Foco, aceitei escrever para aquele que considero um dos mais importantes veículos de notícias de Mâncio Lima, a cidade mais ocidental do Brasil, lugar que conheço e onde tenho grandes amigos. Como editor-chefe do Diário do Acre, sempre procurei colocar no centro da nossa linha editorial uma questão que considero fundamental para o futuro do Estado: o desenvolvimento do Acre. E é justamente para continuar contribuindo com esse debate que pretendo trazer para o Mâncio Lima em Foco alguns personagens, ideias e episódios que, por alguma razão, foram sendo empurrados para o canto da memória acreana.

Para começar, gostaria de trazer novamente à tona o nome de Francisco Wanderley Dantas. Quem ainda se lembra de Wanderley Dantas? Não estou falando apenas de reconhecer seu nome ou saber que foi governador do Acre. Estou falando de lembrar das ideias que defendeu, das perguntas que tentou responder e, principalmente, da concepção de desenvolvimento que apresentou para um Estado que, ainda hoje, enfrenta problemas que ele já enxergava há mais de cinquenta anos. Dantas foi um homem de seu tempo, governou durante um dos períodos mais controversos da história brasileira e sua administração pode e deve ser analisada criticamente. História não é santificação. Mas também não deveria ser apagamento.

Ainda no início dos anos 1970, Dantas tinha uma percepção bastante clara de que o Acre não poderia permanecer condenado ao isolamento. O governador defendia a integração do Estado ao sistema rodoviário brasileiro e enxergava, através do Acre, uma possibilidade de conexão com o Oceano Pacífico, por meio do Peru. A BR-317 fazia parte dessa visão e o chamado Projeto Oeste colocava a integração territorial, a produção e a infraestrutura dentro de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento. Décadas depois, quando falamos em estrada do Pacífico, integração sul-americana, comércio com o Peru, portos peruanos e conexão com o mercado asiático, temos a impressão de que estamos diante de uma ideia nova. Não estamos. Alguém já havia pensado nisso quando o Acre ainda discutia como superar seu isolamento.

Talvez seja justamente aí que comece a nossa dívida com a memória. Por que algumas ideias sobrevivem, mas seus autores desaparecem? Por que o Acre consegue discutir hoje a importância de uma ligação com o Pacífico sem lembrar adequadamente daqueles que defenderam essa integração quando ela parecia distante, cara ou até mesmo improvável? Quantas vezes repetimos como novidade aquilo que já foi pensado por outra geração? E quantas outras ideias poderiam estar sendo discutidas hoje se tivéssemos preservado melhor a memória daqueles que participaram da construção do Acre?

No Plano Oeste, Dantas deixava clara sua concepção de que o desenvolvimento do Estado deveria estar associado a um projeto nacional. A lógica era simples: o Acre, por suas próprias dimensões e limitações, não conseguiria romper sozinho as barreiras geográficas e econômicas que o separavam do restante do país. Precisaria estar integrado a um projeto maior de Brasil. Pode-se discordar da visão política daquele período, das circunstâncias em que ela foi formulada e dos resultados alcançados. O que não parece razoável é fingir que a ideia não existiu ou que não há nada a aprender com ela.

E aqui aparece uma pergunta que talvez seja mais incômoda: o que realmente aconteceu com a ideia de desenvolvimento do Acre depois de Wanderley Dantas? Toda a interpretação socioeconômica do Estado construída a partir dos anos 1970 foi suficientemente plural? Ou parte importante dessa produção intelectual passou a olhar para aquele período exclusivamente a partir de uma determinada lente ideológica? Em pesquisas acadêmicas sobre o governo Dantas, é possível encontrar críticas ao modelo capitalista, à expansão agropecuária e às políticas de ocupação territorial daquele período. Essas críticas podem e devem fazer parte da história. Mas será que precisam ser a história inteira?

Talvez o problema esteja justamente na incapacidade de olhar para o passado sem transformar a história em tribunal. Um governo pode ter erros e, ao mesmo tempo, produzir ideias que mereçam ser preservadas. Um político pode estar inserido em um contexto histórico controverso e, ainda assim, formular uma pergunta importante. Uma política pública pode ter produzido consequências negativas e, simultaneamente, conter elementos que deveriam ter sido aproveitados. A maturidade intelectual de uma sociedade começa quando ela consegue separar essas coisas.

O curioso é que o próprio futuro acabou recuperando parte daquilo que Dantas enxergava. A conexão do Acre com o Peru tornou-se realidade, a BR-317 passou a ser conhecida como Estrada do Pacífico e a integração sul-americana voltou ao centro das discussões sobre comércio, infraestrutura e logística. O governo federal atualmente trata a conexão pelo Acre como parte das Rotas de Integração Sul-Americana. Ou seja, aquilo que parecia uma aposta distante nos anos 1970 transformou-se, décadas depois, em uma das possibilidades estratégicas discutidas para o desenvolvimento regional.

Então por que Wanderley Dantas continua tão esquecido? Talvez porque o Acre tenha adquirido o hábito de lembrar das ideias somente depois de esquecer quem as teve. E Dantas não é o único. Existem outros nomes, empresários, produtores, políticos, técnicos, intelectuais e homens públicos que participaram da construção de diferentes projetos para o Estado e que hoje aparecem, quando muito, como notas de rodapé. Alguns foram esquecidos porque perderam espaço político. Outros porque pertenciam a grupos derrotados pelas transformações históricas. Outros simplesmente porque ninguém mais se preocupou em perguntar o que pensavam.

Uma sociedade que esquece seus homens também corre o risco de esquecer as perguntas que eles fizeram. É por isso que recuperar Wanderley Dantas não significa transformar seu governo em modelo, muito menos ignorar as contradições de seu tempo. Significa reconhecer que a história do Acre é maior do que as narrativas que conseguiram prevalecer. Significa admitir que o desenvolvimento do Estado não começou com a geração política que hoje ocupa os espaços de poder e que muitas das discussões atuais possuem raízes muito mais antigas do que costumamos admitir.

Talvez esteja aí uma das maiores dificuldades do Acre: não apenas construir estradas, produzir riquezas ou integrar territórios, mas construir também uma memória capaz de reconhecer quem tentou fazer essas coisas antes de nós. Se hoje discutimos a saída para o Pacífico, a integração com o Peru, novas rotas comerciais e a inserção do Acre em uma economia muito maior do que seus próprios limites geográficos, precisamos lembrar que essa discussão tem história. E nessa história existe um nome que não deveria ter desaparecido tão facilmente.

Wanderley Dantas morreu em 1982, aos 49 anos. Morreu relativamente jovem, mas deixou uma ideia que atravessou décadas: a de que o Acre não deveria aceitar o isolamento como destino. Podemos discordar de Dantas, podemos questionar suas escolhas, podemos discutir os limites de seu projeto e até rejeitar parte importante de sua visão. O que não deveríamos fazer é esquecer que ele pensou o Acre como parte de algo maior. E talvez seja justamente por isso que precisamos lembrar dele. Não para repetir o passado, mas para entender por que algumas ideias que pareciam impossíveis há cinquenta anos continuam sendo apresentadas, ainda hoje, como desafios para o futuro.

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Ronan Matos é escritor, jornalista, membro da Academia Juvenil Acreana de Letras e editor-chefe do Diário do Acre.