“Vista grossa” do governo pode esvaziar frigoríficos do Acre, alerta Sindicarnes: “O rebanho não cresce, o abate aumenta e o bezerro vai embora”

A permanência do atual ritmo de saída de gado do Acre pode levar, em breve, a um cenário crítico para a indústria frigorífica local. O alerta é do presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros do Acre (Sindicarnes), Murilo Leite, que acusa o governo do Estado de omissão diante de um problema que ameaça investimentos milionários, empregos e a arrecadação tributária.

Segundo Leite, o setor vive uma equação perigosa: enquanto o rebanho permanece praticamente estagnado, o volume de abates cresce e a saída de bezerros para outros Estados segue acelerada. Para ele, a ausência de medidas efetivas do poder público tem agravado o desequilíbrio. “Cabe ao Sindicarnes alertar. O rebanho não cresce, o abate aumenta e o bezerro vai embora. O governo não deveria fazer vista grossa, mas é exatamente isso que vem acontecendo”, afirmou.

O dirigente lembra que, ainda no ano passado, o tema foi amplamente debatido em fóruns do setor produtivo. Na ocasião, o governo estadual teria indicado que só reavaliaria a política quando a saída de animais alcançasse a marca de 150 mil cabeças. Para as indústrias, a espera é injustificável e perigosa. “O governo tem obrigação de arrecadar pelo valor real de mercado. Quando se atribui um valor inferior ao gado que sai, acaba-se facilitando e até incentivando a sonegação”, criticou.

Além do impacto fiscal, Murilo Leite chama atenção para um efeito colateral direto: a exportação de empregos e renda. Na avaliação do Sindicarnes, ao permitir que o gado deixe o estado sem maiores restrições, o Acre contribui para o fortalecimento de frigoríficos em outras regiões, enquanto enfraquece sua própria cadeia produtiva. “Esse animal que sai gera emprego, renda e até novas indústrias fora daqui”, pontuou.

Mesmo diante das incertezas, o setor frigorífico segue apostando no Acre. Leite afirma que as empresas continuam investindo e ampliando suas plantas industriais, confiando que haverá matéria-prima suficiente. Um dos exemplos citados é a expansão da capacidade de abate, que deve saltar de 500 para 800 animais por dia. “Estamos ampliando e investindo com base nessa confiança”, disse.

O Sindicarnes alerta, no entanto, que sem uma mudança de postura do governo estadual — com mais controle, fiscalização e valorização do rebanho local — o risco de faltar matéria-prima deixará de ser uma previsão e poderá se tornar realidade, comprometendo o futuro de um dos principais segmentos da economia acreana.