Estudo da USP diz que tanques de piscicultura têm contribuído para aumentar casos de malária em Mâncio Lima

Levantamento da USP aponta Mâncio Lima como o município com maior taxa proporcional de transmissão

O município de Mâncio Lima, localizado na região mais extrema do Acre, tem uma das maiores taxas de transmissão da Malária do país. Isto é o que diz uma pesquisa realizada por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e divulgada na última sexta-feira (05) através do portal Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Segundo o pesquisador Igor Cavallini Johansen, doutor em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alguns tanques de piscicultura que não são bem cuidados e que se encontram em situação de abandono, ou sem a manutenção correta, podem ter contribuído para a proliferação de criadouros do mosquito transmissor da doença.

“A gente notou que o município tinha uma particularidade, observamos que o número proporcional de casos e habitantes era exorbitante. Quando começamos a olhar os dados disponíveis no Ministério da Saúde, observamos que tinha muita malária urbana, que é aquela transmitida dentro da própria cidade. O ciclo da malária tem muita relação com áreas verdes, então ver o contrário chamou muita atenção”, disse Johansen à EBC.

O doutor em demografia complementou ainda que foi feito um estudo para “decifrar este mistério” em torno do município.

O perfil observado do tipo de pessoa que costuma adquirir o vetor, segundo o pesquisador, são geralmente homens que trabalham na Zona Rural, mas que residem na cidade, ou já infectadas e que precisam ir à cidade se tratar.

Para chegar a este resultado, os pesquisadores fizeram uma coleta de informações, seguido do acompanhamento e testagem de pelo menos de 20% dos habitantes.

“Muitas vezes as pessoas não tem vínculo formal, e vai para a roça trabalhar para outras pessoas, ou na pesca, e essa mobilidade é bastante comum por lá.”.

O Tarde Nacional – Amazônia falou sobre um mapeamento, realizado por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), referente a transmissão da malária em Mâncio Lima, no Acre. O município tem uma das maiores incidências da doença urbana no país. O entrevistado foi o doutor em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Igor Cavallini Johansen.

Ele explicou que, num primeiro momento, houve uma coleta de informações de todos os moradores de Mâncio Lima, seguida do acompanhamento de 20% dos habitantes, com testagem e entrevista, de seis em seis meses. Uma das conclusões do estudo diz respeito à relação da malária com a mobilidade, ou seja, o fluxo frequente de pessoas entre as zonas rurais e urbanas (geralmente homens, entre 16 e 60 anos, mais pobres, com dupla residência, ou pessoas já infectadas que precisam ir ao município para se tratar). Dessa forma que a doença, mais comum em áreas rurais, tem migrado também para a cidade.

Outra problemática evidenciada na pesquisa foram os tanques de piscicultura bastante comuns na área urbana do município. Os tanques foram objeto de política pública no passado, para fornecer aos moradores meio de obtenção de renda. Mas nem todos seguiram cuidando dos depósitos e muitos hoje se encontram abandonados, virando ambientes propícios à proliferação do mosquito transmissor da malária.

Ainda na entrevista, Johansen detalhou como os resultados do mapeamento podem ajudar na formulação de políticas públicas eficazes no combate a doença não só em Mâncio Lima, mas também em outros municípios. E apontou soluções práticas para interromper o ciclo da doença, como o uso de biolarvicidas nos tanques, a distribuição de mosquiteiros ao público com maior potencial de infecção além do investimento em diagnóstico e tratamento da malária nas zonas rurais.