Racha no PCC: vídeos mostram briga entre chefes da facção

Um dos grupos criminosos mais temidos do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), vive uma crise interna sem precedentes, com riscos reais de fragmentação e perda de hegemonia. O estopim do conflito foi a acusação de que Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como o maior líder da facção, teria delatado um dos principais aliados, Roberto Soriano, o Tiriça, em conversas com autoridades enquanto estava preso em Porto Velho (RO).

O conteúdo da gravação vazada, exibido em reportagem do Fantástico no último domingo, mostra Marcola sugerindo que Soriano seria o responsável pela execução de agentes do sistema prisional federal, como o policial penal Alex Belarmino, morto em 2016, e a psicóloga Melissa de Almeida, assassinada em 2017. A suposta “caguetagem” provocou revolta entre lideranças do PCC e foi considerada “uma traição imperdoável” no mundo do crime.

Traição revelada em áudio

O áudio, obtido pelas autoridades, registra Marcola conversando com um chefe de segurança do presídio, onde dá a entender que Soriano estava por trás dos ataques a servidores federais. A revelação causou choque dentro da facção, especialmente em Abel Pacheco, o Vida Loka, outro criminoso de peso, que declarou:

“O mundo do crime tem sua ética. Nós excluímos Marcola do mundo do crime. O crime de São Paulo não merecia passar por essa vergonha.”

Disputa pelo controle da facção

A crise se tornou pública durante o julgamento de Roberto Soriano, que acabou condenado a 23 anos e 5 meses de prisão pela morte de Belarmino. No tribunal, ele negou envolvimento nas execuções e rebateu as acusações:

“Eu não sou inimigo do PCC. Eu sou inimigo do Marcola.”

Soriano afirmou ainda ter decidido deixar a facção, justamente por conta do que considera uma traição de Marcola e do suposto uso político das delações.

A defesa de Soriano alegou que ele foi condenado com base em delações “construídas” e sem provas materiais diretas, e que o julgamento foi uma tentativa de deslegitimar aqueles que se opõem ao comando de Marcola.

Gravações que agravam a crise

Além da delação, outra gravação gerou indignação: nela, Marcola afirma que teria “ajudado” a controlar uma rebelião em Taubaté, em 2001, e que era tratado como “filho” por um diretor do presídio. Para os demais criminosos, como Vida Loka e Andinho (outro líder histórico do PCC), essas declarações ferem os princípios da facção, pois demonstram colaboração com autoridades — algo inaceitável no código do crime.

“Bandido é bandido. Polícia é polícia. Isso foi um tapa na cara do crime”, declarou Vida Loka.

Mesmo após ser confrontado, Marcola teria tentado negar a veracidade dos áudios, mas um laudo técnico confirmou que as gravações eram autênticas e não editadas.

Facção rachada

O embate provocou uma divisão clara dentro da cúpula do PCC. Enquanto nomes históricos como Soriano, Vida Loka e Andinho se posicionaram contra Marcola, grande parte dos membros “da rua” ainda o apoia, o que impede uma ruptura completa por ora.

Ministério Público de São Paulo e pesquisadores, como Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, destacam que o racha é significativo. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde a fragmentação de facções gerou guerras e instabilidade, o PCC sempre manteve uma hegemonia sólida em São Paulo. Essa situação, porém, pode estar perto de mudar.

A estratégia do MP desde 2012, intensificada em 2019, de enviar líderes da facção a presídios federais tinha como objetivo justamente estimular divisões internas, o que parece estar surtindo efeito.