Estrada que liga Cruzeiro do Sul a Pucallpa traria mais custos do que benefícios, diz estudo

A estrada que cortaria o Parque Nacional Serra do Divisor passando por várias terras indígenas para ligar as cidades de Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, deve gerar mais custos do que benefícios aos usuários. Pelo menos é o que diz um estudo feito pela Conservation Strategy Fund (CSF), divulgado na última segunda-feira (18/4).

Segundo o estudo de viabilidade econômica, a estrada deve gerar um prejuízo social de R$ 960 milhões.

O projeto, segundo a análise, também afetaria negativamente as comunidades indígenas, incluindo indígenas em isolamento voluntário, e áreas importantes em termos de significância ecológica.

Durante uma live, Thaís Vilela, economista sênior da organização, destacou que do lado brasileiro há poucas informações, mas, diante de um estudo feito em 2015, é possível reforçar o discurso de que é necessário mais cautela para apostar em uma ligação como esta.

“A construção está dividida em dois trechos, o peruano e o brasileiro e a construção de viabilidade de dois trechos é feita de forma independente. No caso do Peru já existem alguns estudos de viabilidade do projeto, até mesmo sobre os possíveis impactos que a construção da estrada geraria na região. No caso do Brasil existe muito mais desinformação. A gente não sabe qual vai ser o trajeto da estrada na parte do Brasil. O que se sabe em ambos os casos é que a estrada passaria em territórios indígenas e áreas de proteção ambiental. No caso da comunidade indígenas existe uma preocupação adicional porque a área por onde passaria a estrada é de um grupo isolado voluntário, então, o impacto cultural e social seria bastante significativo”, ressalta.

Durante o evento, representantes indígenas do lado peruano e brasileiro foram unânimes em afirmar que o projeto é uma ameaça aos povos originários e destacaram que não houve consulta pública antes de o projeto ser apresentado.

O documento aponta que houve entrevistas com essas comunidades que seriam diretamente afetadas pela construção da estrada e foi constatado que a maioria acredita que:

  • Não há demanda;
  • Traria maior vulnerabilidade da população local
  • Aumentaria a violência
  • Teria um impacto ambiental negativo
  • Impacto social e cultural negativo
  • Há mais interesse de grupos políticos e empresariais

Miguel Scarcello, diretor executivo da SOS Amazônia, destacou que a pesquisa só reforça aquilo que é defendido pela ONG, de que os impactos de um projeto como esse podem ser irreversíveis, além de gerar outros problemas ambientais ainda mais graves.

“Demonstra bem que os interesses para essa construção se baseiam também em uma iniciativa para potencializar e viabilizar o acesso à terra pública, se fazer um grande negócio com as propriedades, se fazer que haja um caos fundiário na região. Essa inviabilidade econômica constatada agora pelo estudo se soma a toda a inviabilidade social, ambiental e política também”, destacou.

Scarcello enfatizou ainda que essa abertura poderia acentuar ainda mais a vulnerabilidade na fronteira, já que há presença grande de narcotraficantes e grupos armados naquela área.

“Temos informações claras que não há uma conexão hoje que tenha que ser fortalecida, pelo contrário, não há comércio ou uso de conexão para se vender produtos de um lado a outro. No lado brasileiro temos situação de total abandono, ausência do poder público. No caso da Serra do Divisor, o governo não promove a preservação e nem potencializa as atividades econômicas já existentes. Os efeitos ambientais nunca foram levantados pelos setores que defendem a construção dessa estrada, principalmente os efeitos negativos nas bacias hidrográficas. Agora, com base nesse estudo temos mais elementos para continuar esse enfrentamento”.